Em meio à Praça da República, no centro de São Paulo, o congolês Israel Kasongo Lavi, 25 anos, costumava andar em busca de uma vida diferente daquela que havia deixado para trás em seu país de origem. No pescoço, um cordão com o mapa do continente africano o faz lembrar dos momentos de alegria com a família, mesmo em dias de dificuldade. Na mochila, o papel e a caneta sempre a postos para desenhar lhe devolveram a esperança de reconstruir a vida no Brasil.

Em outubro de 2015, porém, um pedido inusitado daria a Israel a chance de fazer o que sempre tentou durante a infância e a adolescência na África: pintar. Um profissional de uma agência de publicidade em São Paulo lhe entregou uma foto da cidade e pediu para que Israel reproduzisse em formato de desenho. “Senti que todo mundo gostou”, diz ainda tímido e com o português carregado do sotaque francês.

Hoje, os olhos de Israel brilham e o sorriso largo toma conta do semblante do rapaz quando conta que suas telas estão expostas em uma galeria de arte no centro de São Paulo. As obras com traços fortes e repletos de cores representam, por um lado, a vontade do refugiado de percorrer diferentes países e, por outro, os sentimentos contraditórios da vida na República Democrática do Congo: a saudade em meio à tensão política e econômica.

A trajetória no Congo

Israel faz parte de um dos maiores fluxos de refugiados que chegaram no Brasil nos últimos anos em função da guerra civil que castiga a vida de milhares de pessoas que vivem naquele país. A vontade de desenhar o acompanha desde a infância. “Meus pais me colocaram em uma creche e logo comecei a fazer os primeiros rabiscos”, diz.

Na adolescência, o garoto fazia esculturas e por fim entrou na faculdade Belas Artes do Congo. “Cresci perto de um campo de futebol, passava a tarde com os amigos e depois comecei a praticar grafite nas ruas”, diz. Os momentos pelas ruas do bairro Lemba geraram brigas com o pai, que não gostava de ver o jovem grafitando na região. “Ele me batia sempre que eu saia escondido.”

As memórias divertidas da infância de Israel passam a se tornar cada vez mais escassas na juventude. A crise econômica, decorrente de instabilidades políticas, começou a se tornar cada vez mais presente no dia a dia da família. “Ficou bem difícil para meu pais sustentar todo mundo.”

Durante os tempos de faculdade, além de a situação financeira ter se agudizado, Israel passou a sofrer perseguições políticas. “Ganhava algum dinheiro fazendo grafites nas rua, mas com a chegada das eleições, os deputados pagavam US$ 20 dólares por trabalho de publicidade”, afirma. Até que, certa noite, no dormitório da faculdade, Isarel conta que policiais enviados pelo governo entraram no quarto atirando. “O governo mandava matar quem fazia propaganda política.”

Com o acirramento dos conflitos entre governo e oposição, as ameaças aos estudantes que possuíam qualquer envolvimento com a política, também se intensificaram. “Na saída da faculdades, os policiais chegavam atirando. Tínhamos que esperar três horas para voltar para casa. Sentia muito medo.”

Estudar e trabalhar com a arte como instrumento de manifestação de ideias ou de protestos havia se tornado impossível no Congo. Em 2002, Israel começou a pensar em deixar o Congo e se mudar para o Brasil. “Minha família tinha muito medo que eu morresse e minha história se acabasse.”

Dias de luta no Brasil

Com 22 anos, Israel desceu no Aeroporto Internacional de Garulhos, em São Paulo. “Cheguei com visto de turista para ficar por 30 dias. Só depois consegui o visto de refugiado na Polícia Federal.” Acompanhado do irmão, Cedrick Ikina, ambos falavam apenas o idioma Lingala. Durante o voo, conheceram um companheiro de viagem marroquinho que tinha conhecidos no Brasil. Com essa ajuda, chegaram até um hotel na região central de São Paulo.

Semanas depois, Israel conseguiu uma vaga em um albergue para refugiados no bairro da Bresser. “Meu irmão chorava todos os dias”, diz. “Eu sentia medo de nunca conseguir aproveitar o dinheiro que meus pais gastaram comigo.” No espaço, Israel começou a fazer aulas de português para se adaptar melhor à nova rotina. Até que em uma de suas buscas por emprego no centro da cidade, Israel foi localizado pela criadora e diretora do Projeto Estou Refugiado, Luciana Capobianco.

Criado há dois anos e meio com o intuito de combater o preconceito entre refugiados, o projeto ajuda pessoas na condição de refúgio a se recolocar no mercado de trabalho em funções semelhantes às que ocupavam em seus países de origem. Hoje, mil refugiados têm suas histórias de vida compartilhadas e desses 300 foram empregados pelo projeto. “Uma refugiada também do Congo que ajudava muito a comunidade de congoleses no Brasil nos levou até ele”, diz.

Uma das empresas que fazia parte da rede de contatos do projeto buscava um profissional para trabalhar como assistente de arte. Recém chegado ao Brasil, Israel tinha dificuldades para usar as linhas de metrô e ônibus na cidade. Com ajuda de um conhecido do albergue, foi até a entrevista de emprego no bairro da Vila Olímpia. “Me ligaram no mesmo dia para falar que queriam me contratar. Lavei minhas roupas no albergue e me preparei para começar.”

Hoje, Israel vive em uma casa um pouco mais espaçosa no bairro de A.E. Carvalho, na zona leste de São Paulo. Ele acorda, todos os dias às 5 horas para trabalhar. Além de ter encontrado um emprego, Israel se prepara para viver com a futura esposa, uma brasileira. Ambos se conheceram em uma galeria de arte no centro da cidade.

Israel continua andando pela Praça da República. Agora, no entanto, o caminhar é mais calmo e seguro. De quem começa a firmar os passos em um lugar. “Meu sonho é reconstruir minha vida e minha família aqui”, diz. “No Congo, nunca conseguiria trabalhar e formar minha própria família” afirma ele, que só deseja voltar ao país para visitar a família. Segundo ele, seus pais evitam comentar nas poucas conversas telefônicas que conseguem manter as verdadeiras condições que enfrentam no país.

Na memória de Israel, ficam as lembranças dos bons tempos em seu país: a alegria da família e a saudades dos momentos que passavam juntos. Hoje, no Brasil, a vida é um pouco solitária. “Moro sozinho e no meu tempo livre, costumo assistir televisão”, afirma. “Ainda não conquistei tudo o que quero, mas sei que vou conseguir.”

Fonte R7

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