O começo de abril de 1988 marcou o primeiro fim de semana da temporada da Fórmula 1, no Rio de Janeiro. Dentro da pista, existia a expectativa para a estreia do tricampeão Nelson Piquet pela Lotus e também pela primeira corrida de Ayrton Senna como piloto da McLaren. Mas, há 30 anos, o que se falava mesmo nos bastidores era o mais conturbado momento na sempre tensa relação entre os dois ídolos do automobilismo brasileiro.

No dia 7 de março, quando ainda eram realizados os saudosos testes coletivos de verão no Rio de Janeiro, Senna deu entrevista ao “Jornal do Brasil” e fez uma provocação a Piquet. Quando o repórter Sérgio Rodrigues perguntou o motivo de Senna estar tanto tempo sem falar com a imprensa, o futuro tricampeão respondeu:

– Eu tinha que dar aos outros uma chance de aparecer um pouco. Afinal, não fazia sentido o cara ser tricampeão e eu continuar sendo assunto. Já que ninguém gosta muito dele, o único jeito era eu sumir para que ele pudesse aparecer um pouco.

Embora Senna tenha deixado claro que era uma brincadeira, e a própria reportagem tenha destacado isso, afirmando que Ayrton até queria superar a rixa com Piquet, a manchete “Senna diz que sumiu para Piquet aparecer” teve resposta.

Nelson Piquet, cujo nome passava a batizar o Autódromo de Jacarepaguá, leu a matéria e chamou o jornalista Eloir Maciel para responder a Senna. A reportagem de título “Piquet reabre guerra particular com Senna” continha uma declaração que caiu como uma bomba:

– Senna estava desaparecido por esses meses não foi para me deixar aparecer. Foi para não ter de explicar à imprensa brasileira por que não gosta de mulher.

Ayrton, que já havia sido casado com Lílian de Vasconcellos e namorava na época Adriane Yamin, sem contar outros relacionamentos com modelos famosas da época, ficou furioso. Chegou a querer partir para o box da Lotus e brigar com Piquet no autódromo de Jacarepaguá, mas acabou convencido a se acalmar, pois um confronto poderia render alguma punição antes ou durante o GP do Brasil, que seria disputado dia 3 de abril.

Senna ameaçou entrar na Justiça contra Piquet, que foi convocado para esclarecimentos. Nelson, que no dia seguinte ao estouro da declaração chegara a confirmá-la, depois minimizou o caso, e o advogado Geraldo Gordilho alegou que houve uma interpretação equivocada do que havia sido dito. No âmbito judicial, a questão não prosseguiu e, enfim, os dois passaram a se concentrar em acelerar seus carros.

Com o brilhante modelo MP4/4 e o poderosíssimo motor Honda, que venceria 15 das 16 corridas daquele ano, Senna marcou a pole position em sua estreia pela McLaren, 1s991 mais rápido do que o quinto colocado Piquet, já enfrentando dificuldades com o péssimo chassis projetado por Gerard Ducarouge para a Lotus.

No fim da volta de apresentação, Senna ergueu os braços com problemas no câmbio da McLaren, e a largada foi abortada. Ayrton trocou de carro, o que era proibido pelo regulamento, e fez uma furiosa recuperação até subir do 21º ao quinto lugar em 16 voltas. Foi quando ele chegou em Piquet. A tensão chegava até a Galvão Bueno e Reginaldo Leme na cabine da Globo.

 Agora é a hora da serenidade, porque sem dúvida o Senna vai chegar muito rápido no Piquet – disse Reginaldo.

– Foram muitas discussões, muitos problemas entre os dois brasileiros nas semanas que antecederam o grande prêmio. Como disse o Reginaldo, é hora da serenidade de parte a parte, essa é a nossa torcida. São dois grandes pilotos do Brasil brigando por uma posição – completou Galvão.

Na pista nem houve briga. Com muito mais carro, Senna engoliu Piquet no retão e assumiu o quarto lugar. Em mais dez voltas, Ayrton chegou à segunda posição, mas foi desclassificado por ter trocado de carro. Sem condições de brigar pela vitória, Nelson conduziu sua Lotus ao terceiro lugar, a 1m08s581 do vencedor Alain Prost.

No fim das contas, Senna conquistou seu primeiro título mundial, depois de vencer oito corridas e fazer 13 poles. Já Piquet, que se arrastou durante o ano com sua Lotus e os crônicos problemas de torção do chassis, não venceu na temporada, e foi apenas o sexto colocado, com suados três pódios.

Nos anos seguintes, o tom das declarações de ambos diminuiu, mas eles nunca chegaram a ser amigos. Em 1992, Ayrton gravou uma mensagem para Nelson, que se recuperava de um gravíssimo acidente nos treinos para as 500 Milhas de Indianápolis. Dois anos depois, Piquet demonstrou muito abatimento com a morte do antigo rival.

– Várias vezes eu me peguei imaginando que quando os dois parassem de correr poderiam ter do lado de cá das pistas, porque um respeitava muito o talento do outro. E a minha esperança é de que com o tempo, todo esse passado fosse esquecido – disse Reginaldo Leme em um episódio do quadro Histórias da F1, em 2016.

Fonte GE

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