“É nas suas atitudes e crenças perante a morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental”. Embarcando nas palavras do antropólogo francês, Edgar Morin, pegamos estrada pela BR-101 e chegamos ao Povoado São Sebastião, município de Cedro de São João, no Baixo São Francisco de Sergipe.

No lugar pacato, onde moram pouco mais de 5.600 habitantes, a nossa busca é por um deles que há cerca de seis anos deixou transparecer um sentimento especial pelos que já passaram por esta vida. Cidadãos que deixaram histórias marcadas em lembranças, alimentadas por familiares e amigos.

Se “toda morte anuncia um renascimento”, como afirma o antropólogo, o cedrense Roberto Ferreira Nunes, desempregado há 2 anos [era encarregado de serviços-gerais], encontrou na partida de amigos, e até de gente que nunca viu de perto, a possibilidade de ficar um pouco mais próximo da mãe.

Roberto Nunes, 'Beto', criou o memorial há cerca de seis anos — Foto: Anderson Barbosa/G1 SE

Roberto Nunes, ‘Beto’, criou o memorial há cerca de seis anos .

“Tenho 41 anos e nunca vi minha mãe. Ela veio na lembrança e foi por causa disso que montei este espaço dentro do meu quarto. Desde 1997 que ela não dá notícia. A família toda morrendo, os amigos, aí me deu esta vontade. Queria encontrar minha família. Sem saber o que ocorreu com ela, faço disso minha homenagem para cada um eles”, revela.

O mural da saudade, como Roberto chama o local, não para de crescer. Toda vez que alguém morre na cidade, logo após a realização da missa de sétimo dia, os santinhos distribuídos na cerimônia religiosa vão parar nas paredes do quarto. “Tem uma senhora que sabe que eu faço essa coleção e sempre guarda pra mim”, conta.

O quarto é visitado o ano inteiro por gente que ainda duvida da existência da coleção. “O sentimento de encontrar as pessoas aqui é de alegria. É uma recordação bonita, são lembranças. Neste feriado do Dia de Finados muita gente vem pra cá e acende velas, chora e faz orações para os mortos. Eu nem vou ao cemitério, porque ele já é aqui”, brinca.

O pescador João Hélio Santos é uma dessas pessoas que sempre passa pelo local. Entre os santinhos está o que traz a foto do pai dele. “Acho muito bonito quem faz isso. Em casa eu guardo os dos meus familiares, mas não como Beto. Não guardaria tantos assim, mas não é questão de medo”, afirma entre risos.

Entre os santinhos, o cedrense guarda a foto do governador Marcelo Déda, falecido no ano de 2013 — Foto: Anderson Barbosa/G1 SE

Entre os santinhos, o cedrense guarda a foto do governador Marcelo Déda, falecido no ano de 2013 .

Mural de histórias

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12.459 pessoas morreram no estado de Sergipe no ano passado e em 2007 foram 8.594 pessoas. O número é 45% maior que o de uma década atrás. Sergipe também registrou um crescimento quase duas vezes maior que a média nacional para o período, 23,5%.

Alguns desses óbitos estão representados no memorial. O do governador de Sergipe, Marcelo Déda, que faleceu vítima de um câncer em 2 dezembro de 2013, é um deles. A foto do político está no alto de um desses painéis feitos com papelão, cola e pregos.

Beto mostra a fotografia do governador Marcelo Déda — Foto: Anderson Barbosa/G1 SE

Beto mostra a fotografia do governador Marcelo Déda .

“É uma coleção que a gente vem reviver. São pessoas que fizeram parte do nosso estado e município. São políticos, médicos, marchantes, tantos personagens. Aqui a gente reencontra pessoas que não fazem mais parte das nossas vidas”, conta a professora Zizi Andrade.

Um dos primeiros santinhos a chegar ao acervo de Beto, como é conhecido no povoado, foi o do comerciante Iradir Batista, que nasceu em 3 de maio de 1904 e faleceu aos 96 anos, 15 dias após fazer aniversário.

A frase “a morte é apenas uma forma de transição que libera o espírito para a Vida Eterna” é de autoria do próprio comerciante e está no impresso. Segundo a população, Iradir Batista era um homem com ideias iluministas. Quando não estava atrás do balcão atendendo aos clientes, passava horas sentado na cadeira lendo livros que fizeram dele um intelectual.

Nelson Santana (primeiro destaque) foi um sanfoneiro bastante conhecido na cidade. O segundo destaque é o lendáriao Iradir Batista. — Foto: Anderson Barbosa/G1 SE

Nelson Santana (primeiro destaque) foi um sanfoneiro bastante conhecido na cidade. O segundo destaque é o lendáriao Iradir Batista.

A seriedade, a voz firme e o tom de respeito que impunha fez dele uma lenda na cidade. “Seu Iradir, era uma figura tão folclórica, que diziam que virava lobisomem. Isso se dava, pelo fato de que ele lia muitos livros, que para muitos eram sobrenaturais. Qual a criança da época que não gostava de conversar com ele?! Aprendi muito, com seus ensinamentos e as suas histórias”, conta o técnico agrícola, Gilmar Alves Nunes.

O músico Nelson de Santana, que nasceu no ano de 1935 e morreu em outubro de 2010, também aparece no mural. “Ele foi um sanfoneiro dos bons. Tocava de dia a noite e todo mundo o conhecia por ‘Cristo Sanfoneiro’. Sempre animava os natais daqui. Era o ‘Rei da Sanfona de Cedro’”, lembra.

“Minha avó Marinete, que me criou e que chamo de mãe, também tenho a foto dela aqui. Ela morreu faz uns oito anos. Minha tia e outros amigos também faço questão de tê-los ao meu lado, mesmo dessa forma”, completa.

Luiz da Silva foi assassinado ao tentar evitar um assalto na cidade — Foto: Anderson Barbosa/G1 SE

Luiz da Silva foi assassinado ao tentar evitar um assalto na cidade.

Luiz da Silva era vigilante do Fórum Thieres Gonçalves de Santana quando no dia 9 de novembro 2015 morreu assassinado a tiros. Ele foi ajudar a evitar um assalto dentro de um ponto bancário, perto de onde trabalhava, quando foi baleado pelos suspeitos.

“É uma recordação dessas pessoas que a gente tanto ama. É duro, doloroso relembrar da forma como meu tio foi morto, mas é um trabalho interessante que Beto faz, neste local de reencontro”, afirma Silvânia Silva Maia.

Didelmo Andrade, natural de Cedro, era um jovem alegre, querido entre os moradores da cidade. Ele trocou a tranquilidade da cidade sergipana pelo agito da Capital Federal. Como tantos outros, foi em busca de mudança de vida, de trabalho e uma formação.

“Ele era um estudante de direito. Sonhava em trabalhar no Ministério Público e se tornar uma autoridade na lei. Queria trabalhar em prol das pessoas carentes. Esse era o desejo dele, mas na manhã de 9 de abril de 2015 acabou falecendo vítima de um mal súbito. Hoje, a gente relembra a alegria que espalhava entre nós ”, diz a irmã, Zizi Andrade.

A professora também aponta outros amigos e destaca as características que marcaram a vida de um amigo chamado Wilson Freire, um homem que trabalhava como taxista levando passageiros do município para a capital.

“Tinhô, como era conhecido foi um grande homem, muito prestativo e caridoso. Era motorista de profissão e tinha um coração humilde no tratar das pessoas. A gente olha para estas fotos e o sentimento não é de tristeza, mas de saudade”, pontua.

'Memorial dos Mortos' possui centenas de santinhos de moradores e personalidades da política de Sergipe — Foto: Anderson Barbosa/G1 SE

‘Memorial dos Mortos’ possui centenas de santinhos de pessoas falecidas em todo estado.

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