Um projeto lançado em Brasília quer resgatar momentos de alegria na rotina de crianças submetidas ao tratamento de câncer. O objetivo é dar ênfase à importância da valorização da vida por meio de jogos e do estímulo à brincadeira. O projeto, lançado pela Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace) em parceria com o Centro Universitário do Distrito Federal (UDF), consiste na oferta de 12 jogos – tanto eletrônicos quanto de tabuleiros – a serem usados pelas famílias e pelos pacientes com câncer. Além de facilitar a compreensão em torno da doença, os jogos também querem contribuir para humanizar o tratamento.

A presidente e fundadora da Abrace, Maria Angela Marini, destaca que passatempos e brincadeiras suavizam o peso do diagnóstico para muitas crianças. Ela cita como exemplo o caso da própria filha Joana que, aos 5 anos, em 1986, teve a confirmação de uma leucemia. “Ela sempre diz que tem que ter uma fuga para alguma coisa, para poder vencer esse momento difícil. Para ela, era o Sítio do Picapau Amarelo. Ela ia para o hospital, para fazer quimioterapia, e imaginava aqueles que cuidavam dela como personagens do Sítio”, lembra.

Projeto

De acordo com a diretora de marketing da Abrace, Paula Franco, o primeiro passo do projeto foi entender como os pais das crianças viam o câncer. Segundo ela, as pessoas tendem a associá-lo à morte, como se receber o diagnóstico implicasse, necessariamente, no fim da vida.

Paula ressalta que essa percepção leva muitos familiares a exagerar no cuidado dos pacientes oncológicos. “Através dessas entrevistas, a gente ficou sabendo que, realmente, as pessoas têm tanto cuidado que acabam afastando [os pacientes] do convívio social. As crianças, principalmente. Acabam excluindo da escola. A superproteção não é boa”, afirma. “Eles [os pacientes] se sentem amados e, ao mesmo tempo, excluídos.”

Jogos

Um dos jogos que fazem parte da iniciativa é o Ursoji, por meio do qual a criança fornece a seus pais, sem perceber, informações sobre as emoções que vivencia.

Por ser um dos elementos que mais exigem atenção durante o tratamento contra o câncer, o estado psíquico dos pacientes foi objeto do trabalho de conclusão do curso de design gráfico de Hanna Pimenta e de mais dois colegas.

Voltado a crianças com idade entre 5 e 9 anos, o Ursoji toma nota do quadro psicológico das crianças logo que é acessado. Na primeira tela, o usuário deve escolher o ícone de urso que o representa melhor. Se é, por exemplo, o que sorri, o que está chateado por estar de castigo ou o que sente raiva. Só ao responder esse pequeno diário é que a criança consegue avançar e dar continuidade ao jogo.

“A gente intitulou Ursoji por ser um trocadilho com emoji. Nosso objetivo é dar um pré-diagnóstico emocional da criança. Por exemplo, se ela passa por uma fase difícil do tratamento, fica triste, desmotivada, o que, futuramente, se não for tratado, pode ocasionar uma depressão, ansiedade. Então, todas as vezes, quando ela entra no jogo, começa a interagir. Através daquilo, ele [o jogo] vai traçando um mapa comportamental e, uma vez por semana, é enviado um relatório, para o e-mail de um responsável, sobre como a criança se sentiu. Ajuda aos pais e à própria Abrace a detectar qual criança está com algum problema e como tratar junto a um profissional, como um psicólogo”, disse Hanna.

“A criança, às vezes, fica com vergonha de falar que está triste, acha que alguém vai brigar. Para ela se sentir segura, a gente criou um amiguinho virtual, com o qual pode interagir e, dentro do próprio jogo, se diverte. Tem vários minigames, uma agendinha para programar horários de remédio. A gente imaginou como se fosse um amigo dela mesmo”, acrescentou Hanna, informando que o jogo ainda está no formato de protótipo, mas que deve ser lançado em breve, com o apoio do UDF.

Aficionado dos jogos de RPG (em inglês, Role Playing Game), Bruno Vianna, também do curso de design gráfico do UDF, elaborou o jogo de tabuleiro Gorália: o santuário do abraço. A proposta é mostrar às crianças que a mudança é algo inerente à vida de todo ser humano e que, por mais difícil que seja abdicar de algumas coisas, sempre é possível ser solidário, que uma pessoa preste auxílio à outra. “A gente queria que fosse um jogo mais cooperativo do que competitivo”, diz Bruno.

Recursos terapêuticos

A presidente e fundadora da Abrace, Maria Angela, destaca que as atividades lúdicas consistem, na realidade, em recursos terapêuticos.

“Essa iniciativa [dos jogos] pôde trazer um resgate a esse público em tratamento, momentos de alegria e de vivência da infância, que é o brincar. Ela aproveita o jogo para poder continuar a vida dela. É o foco que nós temos: de valorização da vida. Porque, enquanto a criança está em tratamento, ela não pode perder essa esperança de cura. Isso pode ajudar, inclusive, na evolução do tratamento. No momento em que a sensibilidade da criança aflora, também aflora o equilíbrio, que pode ajudar em todo o processo, dando a ela a capacidade de absorver todos os impactos que o tratamento causa”, afirma.

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