A República assistiu perplexa a mais um capítulo da guerra fria instalada nos corredores do Supremo Tribunal Federal (STF), onde a mais alta Corte do país encontrou a engrenagem perfeita para congelar o caso mais explosivo do ano e blindar o calendário político a menos de vinte dias das eleições. Sob o verniz da legalidade e do rito processual, a sessão extraordinária do Plenário foi encerrada sem qualquer definição sobre a abertura ou o arquivamento das investigações referentes às suspeitas que envolvem o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master.
A manobra que garantiu o abafamento temporal veio na forma de um pedido de vista do ministro Flávio Dino, que dispõe de um prazo regimental de até noventa dias para devolver o processo, empurrando o desfecho das apurações diretamente para o ambiente pós-eleitoral e blindando as urnas de um escândalo de proporções imprevisíveis.
Antes mesmo de avançar sobre o conteúdo das cinquenta e uma mensagens extraídas do celular de Vorcaro — que trariam menções a repasses e relações com familiares de ministros como Nunes Marques e Luiz Fux —, o tribunal travou uma batalha fratricida sobre como a matéria deveria ser tratada. O decano Gilmar Mendes tentou unificar a petição contra Moraes e a avaliação dos atos do relator, André Mendonça, mas o placar inicial escancarou um racha profundo de quatro a quatro na divisão da Corte. Com impedimentos declarados e um empate técnico que, pelas regras do direito penal, beneficiaria o investigado e encaminharia o caso ao arquivamento, o tribunal evitou o desgaste de um desempate conturbado pela Presidência justamente através da intervenção protetora da vista de Dino.
O que se viu no Plenário foi o colapso completo da harmonia institucional, com bate-bocas públicos e acusações mútuas entre os próprios magistrados em plena transmissão nacional. O ápice da crise ocorreu quando Gilmar Mendes interrompeu rudemente André Mendonça, acusando-o de agir tomado por um viés político e criticando a condução das diligências envolvendo a cúpula da Polícia Federal. O espetáculo de hostilidade aberta chocou observadores e levou a ministra Cármen Lúcia a um desabafo histórico, no qual declarou sentir-se profundamente envergonhada com o foco direcionado ao tribunal na reta final da campanha, admitindo que o Judiciário gera um mal-estar cívico na população e pedindo desculpas públicas ao país.
Ao trancar a pauta e postergar o caso Banco Master, o STF tenta ganhar tempo para conter o fogo amigo, mas expõe de forma incontestável a simbiose entre as crises da corte e a conveniência dos prazos políticos da nação.




