Mais que médicos, amigos”, essa é a definição que muitos sergipanos deram, quando questionados sobre a relação com os médicos cubanos. Os profissionais da saúde, que voltaram para o seu país de origem esta semana, deixam os pacientes brasileiros e eles lamentam a situação após o governo cubano romper o acordo de cooperação entre os países. A estimativa em Sergipe é da perda de 94 médicos que realizavam atendimentos principalmente em zonas rurais e de extrema pobreza do estado.
O ano de 2014 marcou a entrada dos médicos cubanos em Sergipe. Segundo o Ministério da Saúde, o programa atendia mais de 607 mil pessoas em Sergipe, distribuído por 35 cidades. Um levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) revelou que 12 municípios sergipanos só tinham médicos cubanos, a maioria delas em situação de extrema pobreza ou vulnerabilidade.
Em muitas dessas cidades, ficou configurado que a relação não era só profissional, os médicos, que atuava em uma cidade da região do baixo São Francisco, por exemplo, dizia que mantinha uma relação de trabalho e amor com a população local, mas ele teve sua identidade preservada por medo de retaliações em seu próprio país. Ele era o único profissional da rede básica de saúde do município e disse que passou a considerar pessoas da cidade como parte de sua família.
“Quando cheguei encontrei muitas dificuldades para trabalhar, os postos de saúde não tinham condições, sem água, sem ar-condicionado, sem balança, com morcegos dentro. Mas com o apoio da nova gestão, conseguimos mudar a imagem da saúde da cidade. Foi muito perceptível a mudança”, disse o cubano.
Antes de embarcar, o médico também agradeceu o acolhimento dos sergipanos e disse que apesar de lamentar sua partida, prefere não alimentar outro sentimento a não ser o de saudade. “Já me despeço de vocês, que estão no meu coração. Agradeço pela amizade e espero que a gente possa se reencontrar para fazer muitas coisas, vocês foram minha família aqui”, afirmou.
Na cidade, ex-colegas de trabalho do médico cubano lembraram seu esforço e dedicação. “O médico era nosso amigo, nunca tivemos uma atenção dada pelos profissionais de saúde como tivemos com ele. É de partir o coração saber que podemos vivenciar situações como essa de forma frequente”, disse a agente de saúde Mônica Siqueira.
O Mais Médicos ocupa quase 30% das Equipes de Saúde da Família mantida nos municípios sergipanos, entre profissionais brasileiros e cubanos. Em Sergipe, o programa conta com 170 profissionais, sendo 96 cubanos, 42 brasileiros, 31 brasileiros formados no exterior e uma portuguesa. Os médicos cubanos respondiam por 56,4% do total do Mais Médicos no Estado.
“O médico com quem eu tive contato foi maravilhoso. Ele resolveu dúvidas minhas e solucionou muitos dos meus problemas que tinha há anos, é difícil receber essa notícia da saída deles do programa”, contou a internauta Shirley Alves, que foi paciente de um médico cubano.
O presidente eleito Jair Bolsonaro disse que os médicos cubanos estavam sendo usados como “trabalho escravo” porque o governo cubano tomava 70 por cento de seus salários. Para Bolsonaro, o programa, que começou em 2013, poderia continuar apenas se os profissionais recebessem o pagamento completo e pudessem trazer suas famílias de Cuba.
Em média, uma equipe de Saúde da Família custa aos cofres municipais R$ 45 mil mensais. No caso do Mais Médicos, o governo federal arca com a contratação, a remuneração de R$ 11 mil transferidos ao programa e um incentivo financeiro de R$ 4 mil, enviado aos fundos municipais de saúde.
Cidades que só tinham médicos cubanos:
| BREJO GRANDE |
2 |
| FREI PAULO |
2 |
| GARARU |
3 |
| ILHA DAS FLORES |
3 |
| ITABAIANINHA |
4 |
| ITAPORANGA D’AJUDA |
2 |
| NOSSA SENHORA APARECIDA |
1 |
| NOSSA SENHORA DE LOURDES |
1 |
| PACATUBA |
2 |
| SANTANA DO SAO FRANCISCO |
1 |
| SAO DOMINGOS |
4 |
| TOMAR DO GERU |
2 |





